Se você não assistiu o filme, recomendo assistir antes de ler, pode conter spoilers e você vai entender melhor do que estou falando!
Para iniciar “as comemorações” de outubro eu resolvi escrever sobre um clássico: O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas). Eu, como fã da dublagem brasileira, usarei os termos em português, aliás, a dublagem de O Estranho Mundo de Jack (versão blu-ray e Netflix) conta com gigantes da área, como a Miriam Ficher (que foi convidada no Hanamachi 2014) e Guilherme Briggs. Já a versão dublada do VHS conta com o grande Nelson Machado (dublador convidado do Hanamachi 2012), que dublou o próprio Jack Esqueleto.
Foi curioso constatar que O Estranho Mundo de Jack, apesar de ter a assinatura clara de Tim Burton, a direção foi feita por Henry Selick (Coraline). Claro, a criação dos personagens e a obra, foi uma criação de Burton, e notamos claramente isso.
Bom, em 23 de outubro de 1993 foi lançado nos Estados Unidos a primeira “grande animação” feita em stop-motion protagonizada pelo esqueleto mais carismático do mundo: Jack Esqueleto. Eu gostaria de deixar claro que existem muitas questões importantes de técnicas cinematográficas usadas no filme, porém não gostaria de me focar nisso nesse texto, pois, o que me cativa em O Estranho Mundo de Jack é justamente a trama do filme e as crises existenciais de Jack.
Jack Esqueleto é o grandioso Rei da Abóbora! Ele vive na cidade do Halloween junto com outros monstros, estes monstros são personagens que nos cativam e que participam ativamente da história, porém eles têm rasa profundidade no enredo, onde o foco fica mais em Jack mesmo e sua crise existencial.
Crise existencial? Mas um monstro, um esqueleto, com uma crise existencial? Sim! Jack se vê frustrado com anos após anos fazendo a mesma coisa: assustando pessoas no Halloween junto com os outros monstros, que nitidamente estão muito felizes e entendem que aquele é o papel deles.
Os outros monstros idolatram Jack, o reconhecem como seu rei e são muito fiéis a ele. A cidade tem um prefeito, mas que segundo o mesmo, “Não pode tomar decisões sozinhos, pois é somente um representante eleito” (risos). Por isso, quem toma as decisões e quem é o mandachuva do Halloween é o nosso Rei da Abóbora!
Mas quem disse que mesmo com todo esse reconhecimento Jack está satisfeito com seu trabalho? Em uma das minhas músicas favoritas do filme, O Lamento de Jack, ele deixa bem claro que sente um vazio dentro dele, vazio este que, provavelmente, todos nós já sentimos ao perceber que caímos em uma rotina ou em um momento da vida que não conseguimos mais ver o propósito de nossas ações. Seja no trabalho, na rotina ou até mesmo em relacionamentos (amorosos ou não).
Mas é passando pela sua lamentação que Jack, encontra um lugar novo, com diversas portas, e uma delas acaba levando para o que seria o novo sopro de entusiasmo em Jack: A Cidade do Natal.
Caindo na Cidade do Natal, ele tenta entender o que está acontecendo, o que é toda aquela felicidade? O que é aquela neve e aquelas luzes? Como assim as pessoas dormem sem medo ou sem monstros em baixo da cama? E se vê naquele cenário: duendes fabricando brinquedos, os habitantes sorrindo, tortas cheirosas e finalmente o rei do pedaço, o Papei Noel (ou Papai Cruel), o qual neste momento do filme Jack vê somente a sombra.
Finalmente ele retorna para a cidade do Halloween com planos, com um entusiasmo que não vimos na primeira parte do filme. Daí ele tenta explicar para os habitantes da Cidade do Halloween o que viu, e claro, os monstros, como monstros que são, enxergam o natal da forma deles, a partir das vivências e experiências deles.
Depois de muita pesquisa e experimentos, Jack resolve que naquele ano irá dar umas “férias” (forçadas hehe) para o que eles chamam de Papai Cruel e, portanto, quem será o responsável pelo Natal, será a cidade do Halloween.
Como dito anteriormente, eles concebem a ideia do natal a partir das vivências e experiências deles mesmos e Jack fantasia o Papai Noel como uma criatura assombrosa. Ou ele faz isso para que, os habitantes da cidade de Halloween o entendam e se juntem com ele na ideia de realizar o natal aquele ano? De qualquer forma, fica muito claro, que os monstros não entendem o que é o Natal de verdade, mas mesmo assim, resolvem se juntar a Jack nos seus planos. Mesmo Jack, vendo com seus próprios olhos a Cidade do Natal, também concebe a festividade a partir das suas vivências e começa, junto com os monstros, a planejar o natal, mas com a cara da Cidade do Halloween.
Eu gosto de destacar essa questão, pois, assim como os monstros, também nos falta as vezes quebrar paradigmas das nossas experiências e das nossas vivências, para entender o que os outros estão querendo dizer ou como eles vivem. Isso fica muito claro quando falamos em culturas de outros povos e países, que naturalmente é difícil assimilarmos e entendermos as atitudes daquelas pessoas, mas também de pessoas próximas a nós! Cada sujeito vê a vida baseada em tudo que viveu até aquele momento, e diariamente nós teremos que nos desafiar a sair um pouco da nossa realidade para entender o que as pessoas passam ao nosso redor, difícil né? Mas necessário.
Acontece que Jack e os monstros não conseguem se distanciar da sua própria essência e, com isso, acabam fazendo a maior confusão na noite de Natal. Mas em algum momento, em meio a mais uma crise existencial (aqueles famosos momentos nossos de “ninguém me entende”) Jack reflete sobre ele mesmo e se aproxima do que ele realmente é, ou se reaproxima da sua essência, coisa que, na verdade, nunca deixou para trás.
Eu gostaria de mencionar rapidamente uma das personagens, a Sally, uma boneca de pano que aparentemente também passa por algumas inquietações (que não são aprofundadas, pois, como já citei, o foco fica em Jack e suas crises de identidade). Sally é uma boneca de pano criada pelo Dr. Finkelstein, e ela nutre uma paixão por Jack (sendo esse romance considerado um dos pontos mais fracos do filme) e ela durante o filme todo tenta reaproximar Jack dele mesmo, pois ela percebe o quão errado pode dar toda essa ideia de “natal”, mas Jack, tão entusiasmado com a ideia, ignora tudo ao seu redor e não escuta o que Sally tenta lhe falar.
O Estranho Mundo de Jack se tornou um clássico, e hoje é raro quem não conheça, ou nunca tenha visto Jack Esqueleto estampado em camisas, bottons, chaveiros e outros, mas mais profundo do que uma estética tão cativante, própria das criações de Tim Burton, o filme traz questões de identidade e existência, e ainda aproxima as duas celebrações que todos nós amamos, o Dia das Bruxas e o Natal!
Para entrar no clima de outubro, (re)assista O Estranho Mundo de Jack e já comece também despertando aquele sentimentozinho de natal dentro de você! Afinal, já estamos em outubro!
Obrigada por ler até aqui!
Com carinho, Bii.